Por Edna Vitorino do Nascimento Silva, psicóloga clínica e integrante do Entre Afetos e Palavras.
O filme Agneta descreve a sensação de viver segundo roteiros que não escrevemos, respondendo ao desejo do outro até perder de vista o nosso próprio contorno. O filme realmente expõe esse movimento com uma delicadeza brutal — a personagem vai percebendo que a vida que ela habita não é a vida que pulsa dentro dela.
Quando crescemos sob expectativas rígidas — julgamento, ausência de afeto, falta de reconhecimento — aprendemos a sobreviver nos moldes que nos deram. Só que esses moldes não cabem para sempre. Eles apertam, sufocam, distorcem. E o corpo, a psique, a pulsão de vida começam a reclamar.
O filme mostra que esse encontro não é romântico, é doloroso. É atravessar o luto por tudo aquilo que não vivemos, por quem não pudemos ser. Mas é também o momento em que algo desperta: “se a minha vida não faz sentido assim, então qual é o sentido que eu quero construir?”. Esse despertar é um ato de coragem.
Agneta atravessa perdas simbólicas — da identidade antiga, das relações que se sustentavam no apagamento dela — para abrir espaço a uma existência mais autêntica. É um luto, sim, mas também um renascimento. A pulsão de vida aparece quando ela começa a se mover em direção ao que é seu, não ao que esperam dela.
Esse movimento de romper padrões, de se reencontrar, de descobrir que existir por si mesma tem um valor que ninguém pode tirar.
O despertar para o desejo próprio é um dos movimentos mais íntimos e, ao mesmo tempo, mais revolucionários que alguém pode viver. Ele não acontece como um clarão, mas como um incômodo que vai ganhando forma até se tornar impossível de ignorar.
O despertar tem algumas marcas muito claras. - Quando o corpo começa a dizer a verdade que a mente tentou calar
Antes do desejo aparecer como palavra, ele aparece como sensação: inquietação, cansaço de repetir padrões, uma espécie de tristeza sem nome. É o corpo dizendo “isso não é meu”. Esse é o primeiro sinal de que algo dentro quer nascer.
Durante muito tempo, desejar pode ter sido perigoso: podia gerar julgamento, rejeição, punição. Então a gente aprende a desejar pouco, ou a desejar o que esperam de nós. O despertar acontece quando percebemos que o desejo não destrói — ele organiza. Ele aponta direção. Ele devolve sentido a vida.
Esse é o ponto mais delicado. Deixar de viver para corresponder ao outro é quase como perder uma identidade antiga. É um luto. Mas é também o nascimento de uma autonomia afetiva: “eu existo mesmo quando não agrado, mesmo quando não correspondo, mesmo quando escolho diferente”.
Não é capricho, não é egoísmo. É vitalidade. É o movimento interno que diz: “eu quero viver de um jeito que faça sentido para mim”. E isso exige coragem, porque implica escolhas, rupturas, reposicionamentos. Mas também traz uma força que antes estava adormecida.
O mais bonito é que esse despertar não precisa ser grandioso. Às vezes começa com um gesto pequeno: dizer não, escolher algo por si, admitir um incômodo, reconhecer um sonho antigo. E cada gesto desse abre espaço para o próximo.
O despertar para o desejo próprio, é sempre um processo de desidentificação e reinscrição. Ele não nasce do nada: ele emerge justamente quando aquilo que nos sustentava — os ideais, as expectativas, os papéis herdados — começa a ruir. E essa ruína é necessária.
Na psicanálise, especialmente em Lacan, o sujeito nasce no campo do Outro: é pelo olhar, pela palavra, pelo afeto (ou pela falta dele) que aprendemos quem “devemos” ser. Por isso, durante muito tempo, o desejo que vivemos não é nosso — é o desejo do Outro internalizado.
O despertar acontece quando esse Outro deixa de ser absoluto. Quando percebemos que viver para corresponder é uma forma de não existir.
O desejo não é um objeto, não é uma resposta pronta. Ele aparece como furo, como inquietação, como aquilo que não se encaixa mais. É o momento em que o sujeito percebe que algo nele não está mais disposto a obedecer.
Esse desconforto é o início da autonomia psíquica.
Para desejar por si, é preciso perder algo:
– a identidade construída para agradar
– o amor condicionado
– a fantasia de que seremos reconhecidos se formos “bons”
– a segurança de seguir um roteiro conhecido
Esse luto é doloroso, mas é também libertador. É o luto do eu alienado.
Na psicanálise, desejar não é sentir — é agir. É fazer um movimento, por menor que seja, que rompe com o automatismo. É dizer “não” onde antes se dizia “sim”. É escolher algo que não se explica pelo dever, mas pela pulsão de vida.
Desejar é arriscar-se a perder o amor do Outro, a desapontar, a ser mal compreendido. Por isso, muitos permanecem presos ao desejo alheio: é mais seguro, mais previsível. Mas é também mais mortífero.
O desejo próprio sempre implica risco — e é justamente aí que ele se torna vivo.
No fundo, despertar para o desejo é despertar para si. É reconhecer que a vida só ganha sentido quando deixamos de ser objeto do Outro e nos tornamos sujeitos do nosso próprio movimento.
É exatamente o ponto onde o “Eu” – Sujeito - começa a nascer forte, seguro e integrado.
Bibliografia
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RUNEVAD, J. 2026. "Meu Nome é Agneta" (filme). Produção: Netflix.