Por Luciana Prado, psicóloga clínica e psicanalista, integrante do Entre Afetos e Palavras.
Quando a dor existe e não encontra palavras, o corpo pode se tornar a via de concretização desse sofrimento. É isso que vemos em Cake: Uma razão para viver.
Nessa história, em que a dor se irradia por todo o corpo, encontramos Claire: uma mulher com muitas limitações físicas, sarcástica, desiludida, que vê o mundo — e a vida passar — por um recorte da janela do carro, deitada no banco, ora atrás, ora à frente.
Nem a composição singela do azul do céu com o verde das árvores lhe traz cor ou vida. Tudo é cinza, opaco, mórbido.
À flor da pele, Claire carrega grandes cicatrizes no rosto e na perna. Em suas entranhas psíquicas, habita uma dor profunda que, por não encontrar palavras, grita e ecoa no corpo. Para anestesiar essa dor — do corpo e da alma —, ela faz uso constante e desenfreado de medicamentos.
É no grupo de apoio para pessoas com dores crônicas — que frequenta não por escolha, mas por encaminhamento médico — que Claire destila seu fel. Implacável, escancara o real da vida sem contorno, sem borda, sem suavidade ou esperança.
Eis que uma das integrantes do grupo comete suicídio. O acontecimento abala a todas, exceto Claire. Há algo naquele ato que a convoca. Ela não se choca — se aproxima. Enaltece o suicídio e, de certo modo, encontra nele uma razão para viver.
A partir disso, passa a ter alucinações e diálogos com a colega falecida, envolvendo-se numa busca por sua história — como se, ao tentar compreender aquele gesto extremo, pudesse dar forma ao que nela permanecia sem nome.
Dizem que, quando se olha para o abismo, ele também olha de volta. Talvez por isso Claire tente, através do abismo no qual a outra se lança, reconhecer o seu próprio.
E, ao fazer isso, desperta em nós sentimentos ambivalentes: raiva, curiosidade, incômodo. Sua acidez e sagacidade nos convocam a olhar também para esse lugar árido, difícil de simbolizar.
Mas qual é, afinal, o abismo de Claire?
Ao longo do filme, descobrimos que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que havia vida: um marido, um filho, um cotidiano possível. Até que, em um dia qualquer, um acidente interrompe esse curso — deixando como marcas as sequelas físicas, as cicatrizes e a perda do filho.
É a partir daí que algo se rompe.
Instalam-se as dores crônicas, mas também um congelamento afetivo. A dor de um luto que não pôde ser vivido e elaborado passa a se inscrever no corpo — não apenas pela perda em si, mas pela impossibilidade de fazer esse luto.
E é justamente através da morte da outra que algo começa, ainda que de forma precária, a se mover. Ao tentar compreender o gesto da colega, Claire se aproxima daquilo que, nela, ainda não pôde ser elaborado.
Silvana, que a acompanha no dia a dia, não ocupa apenas uma função prática de cuidado. Há, em seu gesto, um investimento afetivo constante. Ela a acolhe, insiste, sustenta Claire ali onde tudo nela parece ter desistido.
É no contato com Roy, o viúvo, e com o filho da colega, que Claire começa a tocar sua própria dor. Roy expressa seu ódio, seu desejo de mudança, mas também cuida do túmulo da esposa — sustentando, à sua maneira, a ambivalência do luto.
Claire o acompanha e, de maneira sutil, investe nesse laço: arruma-se para recebê-los em sua casa, permitindo que algo do encontro aconteça.
Nesse mesmo tempo, o responsável pelo acidente, mobilizado pela culpa, vai até a casa de Claire. Diante dele, a dor emerge em forma de ira. Descontrolada, ela o ataca — e chora.
O desespero a leva a ingerir diversos medicamentos, numa tentativa de pôr fim à própria vida. Mas algo nela insiste. Seu corpo reage — ela vomita aquilo que poderia encerrá-la.
Após sair do hospital, uma nova tentativa: agora, diante da linha do trem. Mais uma vez, a presença alucinatória da colega se impõe e, nesse diálogo, algo se desloca. Claire pode reconhecer que foi uma boa mãe. E, a partir disso, há um retorno possível à vida.
Nesse momento, Silvana — que a procurava — irrompe com indignação e nomeia algo fundamental: não foi apenas Claire que perdeu o filho; o ex-marido também perdeu. E ela não conseguia olhar para a dor dele.
Ao final, Claire e Silvana vão ao cemitério. Colocam um sino dos ventos em uma árvore. Permanecem ali, por alguns instantes, compartilhando o silêncio — e o luto.
Ao sair, Claire se deita no banco do carro, mas, desta vez, puxa a alavanca e se ergue. Senta-se.
Como quem, finalmente, pode deixar de apenas sobreviver para — ainda que com esforço — voltar a olhar a vida de frente.
Bibliografia
SIGMUND, Freud. Luto e melancolia (1917). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
SIGMUND, Freud. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
CAKE: Uma razão para viver. Direção: Daniel Barnz. Estados Unidos: Cinelou Films. 2014.