Por Luciana Prado, psicóloga clínica e psicanalista, integrante do Entre Afetos e Palavras.
Desde os primeiros segundos do comovente filme russo Sem Amor (2017), do diretor Andrey Zvyagintsev, a tonalidade da paisagem branca, gélida e emoldurada por árvores secas abre passagem para o interior de uma família em ruínas, cujo afeto, em total sintonia com o cenário externo, se apresenta totalmente congelado.
Em meio a cena de crianças que saem da escola nos deparamos com Alyosha. Um menino de 12 anos, triste e solitário que caminha sem pressa pelo bosque em direção à sua casa. Tempos depois, somos apresentados aos seus pais, Boris e Zhenga, que, após anos juntos, estão em um processo conturbado de divórcio.
O ex casal espera vender o apartamento que tem em comum para seguir a vida. Zhenga, planeja viver com o namorado, um homem mais velho e rico, que poderá sustentá-la. Boris, por sua vez, se relaciona com uma mulher mais jovem, que está grávida.
Eles compartilham uma absoluta falta de afeto e empatia pelo filho, demonstram isenção de qualquer responsabilidade em relação a ele e a intenção de mantê-lo distante.
Enquanto isso, Alyosha, sem lugar na vida e no desejo dos pais, ouve as brigas, as acusações que um direciona ao outro, as palavras de total descaso e desamor em relação a ele e, chora em silêncio atrás da porta do banheiro, num completo desamparo.
No café da manhã do dia seguinte, diante de uma mãe gelada, agressiva e que só tem olhos para a tela do celular, o menino sai de casa e desaparece. Dois dias depois, um telefonema da escola avisa sobre sua ausência, e somente nesse momento os pais se dão conta da falta dele. Acionada a polícia e um grupo de voluntários, as buscas são iniciadas. Todo o planejamento e esforços da equipe são infrutíferas e estéreis pois não levam nem ao menino, nem ao degelo da vida afetiva empobrecida dos pais.
Para compreender a impossibilidade dos pais em lidar com seus próprios sentimentos, recorro ao pensamento da psicanalista Joyce McDougall (2013). Segundo ela, algumas pessoas, diante da impossibilidade de sustentar uma experiência afetiva intensa, acabam expulsando da consciência ideias e sentimentos ligados a ela
Uma vez jogada para fora, essa vivência não pode ser elaborada psiquicamente. Esse fenômeno, chamado desafetação, diz respeito a um distúrbio da economia afetiva, no qual o afeto perde sua ligação com o pensamento.
Sendo assim, o que não pode ser sentido encontra outras saídas, seja através do corpo, seja através da ação.
Esse modo de funcionamento é uma forma de defesa utilizada por pessoas que, já no início da vida, se viram sem proteção e viveram experiências emocionais profundas que ameaçavam sua integridade e identidade, ou que cresceram em ambientes sem amor e afetivamente empobrecidos.
Dessa forma, essas pessoas apresentam dificuldades para dar significado ao que sentem, compreender suas experiências e manter contato com as próprias emoções e com as dos outros, recorrendo à ação como forma de dispersar esses sentimentos.
Como o sujeito se encontra separado de suas emoções e de sua realidade psíquica, as palavras perdem a função de ligar o que foi vivido com o que foi sentido, existindo apenas como estruturas congeladas e vazias, tanto de sentido como de afeto.
Na desafetação o risco de desmoronamento psicossomático é grande, pois o sujeito apresenta uma inaptidão para conter o excesso de vivências afetivas e de refletir sobre elas.
No filme, vemos que o casal não só tem dificuldade em entrar em contato com as próprias emoções, como também não conseguem perceber o sofrimento um do outro e do próprio filho. Um exemplo claro ocorre na cena do café da manhã, quando a mãe, fixada na tela do celular, diante da recusa do filho em terminar a refeição, o destrata e não consegue perceber suas lágrimas silenciosas e nem a tristeza profunda que o abate.
Como um protagonista, o celular da mãe está presente em suas mãos boa parte do filme. Em duas ocasiões, ele chega a servir para que ela exiba uma falsa felicidade nas redes sociais: na cena do cabelereiro, após uma pose e uma self sorridente a foto é postada imediatamente no Instagram. O mesmo ocorre no jantar com o namorado, quando Zhenga fotografa a comida e em seguida torna a imagem pública na rede social.
Suponho que, diante dos problemas emocionais da relação com o filho, com o ex-marido e com a própria mãe, com os quais não consegue lidar, o uso compulsivo que ela parece fazer do celular e que se destaca nessas cenas, seja uma forma de dispersar o afeto.
O cigarro e o impulso agressivo voltado ao marido também podem ser pensados como recursos para a dispersão afetiva.
Um exemplo emblemático se dá na cena em que Zhenga e o ex-marido se dirigem à casa da mãe dela. No que poderia ser um esboço de preocupação, ela questiona o ex- companheiro sobre a possibilidade de algo ter acontecido ao filho, hipótese que é rejeitada e minimizada por ele. Diante disso, ela acende um cigarro.
Em outra cena, de volta de um encontro conturbado com a mãe que a destrata e a expulsa, Zhenga ataca o ex-marido, afirmando que nunca o amou e deveria ter abortado o filho. Em resposta, ele a coloca para fora do carro. No acostamento da rodovia, ela, munida do celular, novamente acende o cigarro.
Ao contrário da ex-mulher que transbordava sua ira, Boris se mostrava um sujeito ausente, inerte, muito desafetado e distante de si. Apesar de ter um relacionamento com uma mulher afetiva, ele não se deixava tocar nem por ela e conservava total indiferença e frieza. Ocultava dela até mesmo o desaparecimento de Alyosha.
Diante de um divórcio conturbado, sendo atacado pela ex-esposa, com um filho de 12 anos do qual ele deveria se responsabilizar, e ainda uma namorada grávida, a única preocupação de Boris era manter o trabalho e se adequar à filosofia da empresa, que não aceitava pessoas divorciadas. Essa postura fica evidente em uma cena no refeitório, quando, após conversar com um colega, ele conclui que poderia se divorciar e casar novamente, de modo a continuar aceito e em conformidade com os padrões da empresa.
Incapaz de amar, sem qualquer senso crítico, distante de seu mundo interno e de seu sofrimento, e bem adaptado as normas impostas pela empresa, para Boris a construção de uma nova família estava ligada não ao desejo, mas a manutenção de uma adequação.
Esse modo de funcionamento dele, a meu ver, se aproxima do que McDougall (2013) denominou como normopata, para se referir a pessoas que, apesar de uma profunda infelicidade, buscam proteger-se de qualquer tomada de consciência de suas experiências afetivas, refugiando-se atrás de uma defesa de pseudonormalidade.
No final do filme, a incógnita sobre o destino de Alyosha se mantém e os pais seguem suas vidas vazias. Vemos que Boris, com sua outra família, continua ausente. Fixado na TV, ele se irrita com o novo filho que brinca, o coloca no cercadinho e volta para o sofá sem considerar o choro doloroso da criança.
Zhenga, aparece sentada diante do celular e do lado do atual companheiro que assiste o telejornal. Com uma aparente solidão, ela se levanta, abre a porta que dá para o lado de fora da casa e vai correr na esteira.
A paisagem, assim como o ex casal, continua branca, fria, não há degelo.
Bibliografia
MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
ZVYAGINTSEV, Andrey. Sem amor. Rússia: Non-Stop Production, 2017.