Por Edna Vitorino do Nascimento Silva, psicóloga clínica e integrante do Entre Afetos e Palavras.
Vamos falar sobre solidão, família adoecida e novos pertencimentos sob a perspectiva do filme.
A solidão que o filme retrata não é apenas a ausência de pessoas – é a ausência de lugar onde a alma possa descansar. É a solidão de quem cresceu dentro de uma família que não soube acolher, que não soube amar sem ferir, que não soube existir sem adoecer seus próprios membros.
Quando a família adoece, ela cria sobreviventes, não filhos. E sobreviver dentro dela exige silenciar partes de si, esconder fragilidades, aprender a caber em espaços que nunca foram feitos para acolher.
Mas o filme mostra algo profundamente humano: mesmo quem foi ferido pela própria origem continua desejando pertencer.
Esse desejo é tão forte que, quando a família de sangue falha, o coração procura outros braços, outras vozes, outros afetos capazes de reconstruir aquilo que foi quebrado.
É esse movimento que surgem os laços mais inesperados – laços escolhidos, não impostos. Laços que não nascem do dever, mas da necessidade mútua de existir com menos dor. Laços que curam porque não exigem perfeição, apenas presença.
O filme toca porque revela que família não é o lugar onde você nasceu, mas o lugar onde você finalmente pode respirar.
E que, às vezes, é fora da família adoecida que encontramos o primeiro gesto de amor que realmente nos reconhece.
No fim, o pertencimento não é um destino herdado – é uma construção.
E cada encontro verdadeiro é uma chance de reescrever a própria história.
Bibliografia
BOWLBY, John. Apego e perda. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
MINUCHIN, Salvador. Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 1982.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: atualidade da depressão. São Paulo: Boitempo, 2009.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021
HUGO MÃE, Valter. O filho de mil homens. Lisboa: Penguin Random House Grupo Editorial, 2011.
FROMM, Erich. A arte de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas:
cérebro, mente e corpo na cura do trauma. São Paulo: Elefante, 2021.
CYRULNIK, Boris. Os patinhos feios: resiliência – uma infância infeliz não determina a vida. São Paulo: Martins Fontes, 2001.