Por Luciana Prado, psicóloga clínica e psicanalista, integrante do Entre Afetos e Palavras.
Como uma forma de ilustrar o percurso da formação do sintoma, recorro a algumas passagens do filme O Sexto Sentido, em uma espécie de licença poética.
No filme, acompanhamos o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis), um profissional reconhecido, mas atravessado por um sentimento de fracasso diante de um paciente que não conseguiu ajudar. Em sua vida pessoal, ele também encontra uma dificuldade importante: a impossibilidade de comunicação com a esposa.
Cole Sear (Haley Joel Osment), um menino de 9 anos, vive com a mãe, que, apesar de amorosa, não consegue escutá-lo em sua singularidade. Ele se percebe como estranho, sente medo, vive isolado e cria rituais de proteção — como uma cabana em seu quarto — na tentativa de lidar com aquilo que o invade.
Ao longo do filme, um elemento se repete: a dificuldade de comunicação. Ela aparece entre mãe e filho, entre marido e esposa e também na relação inicial entre Malcolm e Cole. Algo não encontra palavra — e, quando não encontra palavra, retorna como sintoma.
Cole carrega um segredo. Seu sintoma, que inicialmente aparece como medo de “fantasmas”, pode ser pensado como uma tentativa de dar forma a algo que ainda não pôde ser simbolizado. O sintoma, nesse sentido, não é apenas um efeito de conflito psíquico, mas também um portador de uma verdade que insiste em se manifestar.
Em um primeiro momento, Malcolm falha ao tentar compreender Cole. Antes mesmo de escutá-lo, antecipa diagnósticos e se apoia em referências já conhecidas. Aqui, podemos pensar no risco de uma escuta que se fecha ao novo, substituindo a experiência pela teoria.
A resistência de Cole aparece tanto em suas palavras quanto em seus atos — ele evita, se afasta, interrompe. Mas, pouco a pouco, algo da relação se transforma.
É pela via da transferência que o trabalho se torna possível.
À medida que Malcolm consegue sustentar uma escuta menos tomada por suas próprias angústias e expectativas, Cole encontra espaço para falar. Quando o menino consegue colocar em palavras aquilo que antes aparecia apenas como sintoma, algo se desloca. O medo ganha sentido, e novas saídas se tornam possíveis.
A transformação de Cole se evidencia em pequenos movimentos: ele passa a investir em outras atividades, se insere socialmente e, sobretudo, consegue finalmente compartilhar seu segredo com a mãe — que, dessa vez, escuta e acolhe.
Se, no início, o sintoma aparecia como algo enigmático e ameaçador, ao longo do processo ele se revela como uma via de acesso à história do sujeito.
O filme também nos convida a olhar para o lugar do analista. Malcolm, atravessado por sua própria história e por um trauma não simbolizado, encontra dificuldades em sustentar sua escuta. É somente quando algo de sua própria experiência pode ser reconhecido que ele se torna mais disponível para o encontro com o outro.
Talvez possamos dizer que, assim como Cole, Malcolm também precisava encontrar palavras para aquilo que o habitava.
O Sexto Sentido nos lembra que, quando algo não pode ser dito, encontra outras formas de aparecer. E que é na possibilidade de ser escutado — verdadeiramente escutado — que o sujeito pode começar a se apropriar de sua própria história.
Bibliografia
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